Guerra cultural e transformações sociais: as eleições presidenciais de 2006 e a "blogosfera"
*Roberto Grün
Professor do Departamento de Engenharia de Produção da Universidade Federal de São Carlos (DEP/UFSCar); pesquisador do Núcleo de Estudos em Sociologia Econômica e das Finanças da Universidade Federal de São Carlos (Nesefi/UFSCar). E-mail: rgrun@uol.com.br
Introdução
A disputa eleitoral pela presidência da República do Brasil, em 2006, abriu uma janela interessante para a Sociologia analisar mudanças sociais e econômicas "a quente ". A energia social deflagrada produziu uma série de solavancos em crenças e convenções culturais e econômicas que pareciam dados permanentes da realidade. Assistimos a uma transformação do espaço dos pensáveis e dos possíveis. Ela deflagra uma dinâmica cultural e política cujas conseqüências de longo prazo são difíceis de avaliar, mas que levaram a alterações importantes nos pressupostos da atividade econômica e financeira. Em termos analíticos, passamos de um período em que o grupo político e ideológico reunido em torno de Fernando Henrique Cardoso (FHC) controlou a agenda econômica da sociedade brasileira, que durou até as eleições de 2006, para um novo momento no qual tal controle parece ter se desvanecido, ou, pelo menos, enfraquecido.
O texto que apresentamos pretende ser uma análise da disputa cultural que, esperamos poder provar, subsume a disputa propriamente política e lhe confere inteligibilidade sociológica. Ele procura mostrar que o episódio em questão é um capítulo importante de uma guerra cultural que atravessa a sociedade brasileira e que os resultados parciais dessa disputa condicionam suas alternativas tanto na esfera política quanto na econômica. Na análise que se segue, procuramos demonstrar a importância da inflexão observada, tentando levar em conta não só as mudanças, mas também as inércias que apareceram no período. Trata-se, assim, de uma sociologia econômica do conflito cultural, que procura, em algumas características da dinâmica cultural, as chaves para apreender a dinâmica econômica da sociedade.
A polissemia e a dominação
Na ordenação das evidências que informam investigações sobre dinâmica social, análises em cross-section guardam uma aparência de rigor, mas, dificilmente, conseguem introduzir o movimento na sua chave explicativa. Por sua vez, cronologias são facilmente impugnadas pela acusação de arbitrariedade na seleção de fatos considerados relevantes. A busca de um sentido para o fluxo de fatos produzidos recentemente em torno das eleições presidenciais de 2006, no Brasil, pode ser um interessante ponto de entrada para sair dessa oposição desvitalizante. Nesse sentido, a presente análise pode ser considerada como um primeiro tiro, a ser calibrado pela crítica dos pares que, certamente, acompanharam os eventos que discuto e podem melhorar ou infirmar as seqüências que alinhavo. Cremos, assim, podermos justificar a celeridade em discutir um tema do presente, pois ela é necessária para registrar um raro momento em que a janela ficou aberta, deixando-nos ver, claramente, os traços de disputas culturais, políticas e econômicas fundamentais para o futuro da sociedade brasileira, que, normalmente, não se deixam revelar.
A análise dos modos de dominação induz a armadilha estática: se os poderosos do momento têm ao seu dispor tantas armas, além do reconhecimento tácito da legitimidade da sua dominação e também a capacidade quase infinita de cooptar os recém-chegados às elites do poder, como, então, as sociedades acabam se transformando? Pretendemos tratar esse problema mediante a análise de alguns eventos ocorridos na campanha de 2006 para a presidência do Brasil, que opôs, fundamentalmente, Lula a Alckmin. Para tanto, procuraremos explorar a polissemia presente no debate daquele momento, bem como as suas conseqüências para o futuro da sociedade, e também deduzir, a partir dessa matéria-prima cultural, algumas revelações sobre a estrutura social brasileira do presente.
A polissemia aparece em contenciosos culturais e suas conseqüências se espraiam nas esferas econômica e social (Darnton, 1986; Bourdieu, 1997; Donadone e Grün, 2001). Neles, os atores disputam, principalmente, a interpretação hegemônica da realidade: a que prevalece assinala a vitória durável de um grupo ou do outro, porque as interpretações instituem as categorias cognitivas a partir das quais a realidade passa a ser entendida e, portanto, transformada ou conservada. A disputa cognitiva é, assim, uma espécie de metapolítica, que produz o espaço de referências possíveis e prováveis para balizar os contenciosos, predeterminando, em grande medida, os seus resultados (Bourdieu, 1997). Exemplificando, uma transformação simbólica recente é a que (re)categoriza o exercício da sexualidade feminina: na versão precedente, oriunda do período vitoriano inglês, ela devia estar subordinada às obrigações familiares que preconizavam a castidade das solteiras e a fidelidade das casadas acima de quaisquer outras considerações (Mosse, 1985). Na que começou a ser propagada com o advento da psicanálise e a prevalecer depois da "revolução feminista " dos anos 1960-70, instaurou-se a busca do amor e do prazer como os princípios estruturantes do comportamento. Não é necessário registrar que a alteração das categorias de percepção da realidade foi produzida pelo embate social e que a sua instituição alterou significativamente a convivência humana, a ponto de as gerações que iniciaram sua vida depois da mudança viverem-na como se fosse simplesmente "a natureza humana ", sem, sequer, imaginar "como era possível " a configuração anterior (Swidler, 2001).
O exemplo da questão de gênero mostra uma realidade já mais ou menos consolidada1. Aqui, porém, pretendemos mostrar algumas possibilidades de tratamento e acompanhamento de mudanças simbólicas significativas bem menos consolidadas. Logo, falamos de um embate simbólico cujos principais movimentos ainda estão acontecendo aos nossos olhos, o que complica a análise sociológica, mas também a torna mais sedutora.
Igor Romanov - leia as continuações no blog de coxipodaponte
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