
Em artigo publicado hoje pelo Diário de Cuiabá, faço um ligeiro balanço da grev
e dos médicos, saudando a disposição destes profissionais de se engajarem em uma luta contínua pela melhoria do atendimento ofertado pela Saúde Publica em nosso Estado.
Confiram o artigo:
Meus amigos, meus inimigos: existem uns ingênuos que insistem em dizer que a luta de classes acabou com a queda do Muro de Berlim; que a luta por mudanças na sociedade perdeu a importância; que estamos todos condenados a viver e conviver eternamente neste capitalismo marcado pelo empobrecimento dos trabalhadores das mais diversas categorias.
Digo que essas pessoas são ingênuas porque tentam tapar o sol com uma peneira
. A realidade da luta de classes está aí, diante de nossos olhos. Por todos os cantos, em todos os países. A garota de mini-saia que luta contra toda uma universidade repressora faz luta de classes. A família que briga para punir seguranças que espancaram até a morte seu filho dentro de um shopping faz luta de classes. Os servidores que esta semana paralisam o
Judiciário de Mato Grosso em busca de dignidade fazem luta de classe. E quem disse que, amanhã ou depois, o capitalismo não será trocado por um novo sistema de relações econômicas? Como o poeta Drummond, recuso-me a falar de um mundo caduco, prefiro acreditar que nós, homens, somos capazes de aperfeiçoar, continuadamente, o nosso modo de vida. No ano três mil, certamente que não estarei por aqui, mas muitos estarão.
Escrevo e penso na paralisação que os médicos encerraram nesta semana, em Cuiabá. Foram mais de 70 dias de uma greve exemplar. Quem é que, antes deste movimento, tinha ouvido falar no Dr. Luiz Carlos Alvarenga, no Dr. Edinaldo Lemos, no Dr. Oderlino Godoy, na Dr. Elza Queiroz? São dirigentes do Sindicato dos Médicos que despontaram no cenário sindical, demonstrando sensibilidade para com as dores de nosso povo. E o Dr. Arlan Azevedo, presidente do Conselho Regional de Medicina, também anda por aí, dando dores de
cabeça para o incompetente secretário Luis Cabeção, à medida que se mostra implacável na cobrança de melhores estruturas para o funcionamento dos prontos socorros da região. Nesta greve, também se conheceu a capacidade de luta dos cirurgiões do Box de Emergência, dos pediatras, dos anestesistas do PSMC, dos clínicos do PSF, dos postos de saúde, das policlínicas. Profissionais como os doutores Jair Marra, Alberto Bicudo, Dirceu Torniolo, Eliana Carvalho, Valter Gouveia, Danison Reis, Fernando Pará, Carlos Metello, José Antonio Figueiredo, Ézio Ojeda, Rogério Cantadore e Osmânio Pimenta que saíram do anonimato das salas de cirurgia, das clínicas médicas, para impulsionar um movimento reivindicatório e uma luta profun
damente didática.
É natural que, agora que a Prefeitura cedeu, a greve se interrompa. Uma coisa, todavia, me emociona: esses médicos não me parecem dispostos a sair de cena. Mesmo porque, ao contrário do que dizia o Cabeção, a luta desses profissionais não se centra na reivindicação salarial. Eles querem é influir na qualidade dos serviços que os gestores ofertam à sofrida população da Grande Cuiabá, na área da Saúde. Sim, porque colocam em xeque um descaso qu
e marca não apenas a administração do Wilson mas também a de Murilo e a de Maggi, incrustada no Paiaguás. Não dá mais pra suportar ver os prontos socorros destas cidades funcionando como açougues de segunda categoria. Não dá mais pra ver pacientes armazenados como mercadorias descartáveis em macas sem colchão distribuídas de qualquer jeito por tristes e sombrios corredores; acompanhantes que tem que dormir no chão; pessoas humilhadas e ofendidas por todos os cantos. O fato é que o SUS movimenta milhões de reais todo mês – e este dinheiro não pode, simplesmente, ir para o ralo ou para as campanhas eleitorais enquanto o povo pobre continua sendo o dado menos valorizado nas planilhas dos burocratas de plan
tão.
Por isso é saudável pensar que esses médicos continuarão se empenhando para conquistar melhorias para seus pacientes, mesmo depois da hora da consulta. Para isto, já falam em desdobrar as lutas dessa greve que, na verdade, inaugurou um Movimento pela Dignidade na Saúde Pública. Um movimento que deve ser assumido não só pelos médicos, mas por todos os profissionais da Saúde, por todos os cidadãos que sabem que democracia não deve ser apenas a garantia de liberdades formais mas, sobretudo, a elevação do Índice de Felicidade Humana, de tal forma que possamos nos orgulhar de viver nesta terra e neste tempo.


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