O mineiro que fisgou o PT
Publicado em 04-Abr-2011
(artigo publicado no Estado de São Paulo em 03.04.2011)
Não era um ‘cabeça de planilha’ e nutria forte realismo político: eis o Zé que aproximei de Lula
Conheci Zé Alencar meio por acaso e logo simpatizei com sua figura. Mineiro como eu, vindo de uma cidade pequena e filho de família pobre, ele foi autodidata e começou a trabalhar desde muito cedo. Em sua simplicidade, que jamais deve ser confundida com ingenuidade, lembrava Lula em muitos hábitos e características pessoais.
Havia uma complementaridade que estava até em suas trajetórias. Um, depois de ser derrotado em duas eleições presidenciais, trabalhou por meio do Instituto da Cidadania com a ajuda dos maiores especialistas em Brasil de seu tempo para estudar os aspectos mais importantes do País, ao mesmo tempo em que viajou de norte a sul pelas Caravanas de Cidadania para conhecer essa realidade de perto, ao lado do povo. O outro era agente direto da construção do Brasil que conhecemos à frente de uma das maiores empresas nacionais, ao mesmo tempo em que exercia mandato de senador por Minas Gerais.
Mas foi seu profundo conhecimento do Brasil e sua visão sobre nosso desenvolvimento que me atraiu. Era um nacionalista obcecado pelo incentivo à produção e pela defesa do mercado interno, eterno adversário dos “cabeças de planilha” que acreditam poder manipular a economia com um punhado de indicadores, sem conhecer o Brasil real. Também por isso, tinha grande sensibilidade para a necessidade de oferecer melhores condições de vida para os trabalhadores do campo e da cidade.
Alencar cruzou nosso caminho quando o PT estava preparado para abrir um amplo leque de alianças e apresentar ao Brasil um programa econômico sólido, voltado para a retomada do crescimento, em vez de apenas para um enunciado de propostas de médio prazo sobre nossa economia. O perfil do vice-presidente, político nato, casou perfeitamente com esses pressupostos: era um idealista quando lidava com seus planos pessoais, mas não abria mão do realismo político quando tratava de temas importantes para o País. A sinergia desse trabalho foi bem expressa mais tarde com o lançamento da Carta ao Povo Brasileiro, que resumiu em um manifesto os objetivos dessa nova etapa de alianças.
Quando fomos às comemorações dos 50 anos de vida empresarial de Zé Alencar, Lula e eu tivemos a intuição certeira de que havíamos encontrado o candidato ideal a vice-presidente, em parceria com o PT. De minha parte, posso dizer que as palavras de Alencar trouxeram fortes lembranças do nacionalismo, amor pelo trabalho e adoração pelo Brasil que eu via em meu pai valores que guiam minha carreira política desde o início.
Ao longo do discurso, cada vez que ele falava sobre sua vida de menino pobre no interior de Minas Gerais que teve de aprender sozinho uma profissão, e, ao mesmo tempo, discorria com cultura e conhecimento sobre o Brasil e os principais problemas do País, a impressão de que ele era a pessoa certa se aprofundava. Já então tinha aquele bom humor característico e mostrava-se sem rodeios e firulas teóricas, mas com objetividade e simplicidade. E o mais importante: apresentando propostas concretas. Ali estava um empresário democrata, nacionalista e progressista.
É verdade que uma parcela importante do PT não o viu assim - era uma heresia então, para grande parte da militância, fecharmos chapa com um empresário. Tivemos, Lula e eu, de lutar contra a corrente para convencer o partido de que essa era a aliança necessária para que pudéssemos levar nossa mensagem não só a Minas Gerais, mas a milhões de micro, pequenos e médios empresários. Sabíamos, pela dura experiência anterior, que não seria possível vencer sem ter um pé no Palácio da Liberdade, e daí a importância que se dava à época na aliança com Itamar Franco, ou uma aliança com o empresariado produtivo do País, unidos principais interessados nos planos que tínhamos para retomar o crescimento do Brasil.
Claro, nenhum dos que torceram o nariz à vinda de Alencar para a chapa petista poderia imaginar que o vice-presidente seria, nos próximos anos, um critico implacável do monetarismo: o representante do capital que levantava desconfiança entre petistas acabou, no fim das contas, por discursar lado a lado com nossas lideranças mais ideológicas. Foi um parceiro leal de Lula e o primeiro filiado de honra do PT, cuja morte causaria o luto unânime entre a militância. Alencar provou-se ainda mais valoroso do que previa a direção do partido, que o defendia por ver em sua candidatura um passaporte para a vitória e uma garantia para milhões de cidadãos de que nosso propósito era governar para todos, com um programa que retomasse o objetivo de desenvolvimento nacional com distribuição de renda - o que segue acontecendo, graças também às valorosas contribuições do vice-presidente.
Esse foi o Zé Alencar que conheci e passei a admirar ainda quando estávamos em campanha. Quando vencemos e fomos para o governo, vimos surgir os fortes laços de amizade e lealdade que o mantiveram ao lado de Lula e do PT. Participou das decisões do governo sem jamais perder o espírito crítico: independente, e na hora das grandes crises, esteve ao lado de Lula, leal e lutador, cerrando fileiras. Comigo também não teve nunca dúvidas: estendeu seu braço forte e guerreiro para me oferecer amparo, ajudando a me levantar nos momentos mais difíceis. São características que revelam que, além de um estadista, Zé Alencar continua sendo fiel, antes de mais nada, a suas raízes e a sua Minas Gerais, sem medo de ser coerente e defender a justiça.
José Dirceu é advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT.

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