Khaled Al-Hamedi ante las tumbas de sus hijos y de su esposa.
Foto: Franklin Lamb / Red Voltaire
Era uma festa familiar como tantas outras celebradas na Líbia. Toda a família havia se reunido para celebrar o terceiro aniversário do pequeno Al-Khweldy. Seus avós, seus irmãos e irmãs, seus primos e primas se encontraram na propriedade familiar situada em Sorman, a 70 km ao oeste da capital líbia, um amplo terreno de onde os membros da família haviam construído suas casas, pequenas, sóbrias, de um só piso.
Sem luxos supérfluos, no entorno caracterizado pela simplicidade da gente do deserto, rodeado por uma ambiente de calma e união, o avô, o marechal Al-Khweldy Al-Hamedi, criava seus pássaros. É um herói da Revolução. Participou na derrubada da monarquia e na libertação do país da exploração colonial. Todos estão orgulhosos dêle. Seu filho, Khaled Al-Hamedi, presidente da IOPCR, uma das organizações humanitárias mais importantes do mundo árabe, criava cervos naquele mesmo lugar. Uns 30 meninos perambulavam e jogavam em meio aos animais.
Os presentes estavam imersos também nos preparativos das bodas de Mohamed, irmão de Khaled, que se encontrava na frente lutando contra os mercenários estrangeiros dirigidos pela OTAN. A cerimônia ia celebrar-se naquele mesmo lugar, alguns dias mais tarde. A noiva estava radiante.
Ninguém percebeu que, entre os convidados, havia se infiltrado um espião. Parecia estar enviando mensagens a seus amigos através do twitter. Na realidade, havia colocado vários dispositivos de referência dentro da propriedade e estava utilizando a rede social para vinculá-los ao quartel general da OTAN.
No dia seguinte, na noite de 19 a 20 de junho de 2011, às 2:30 da manhã, Khaled está regressando a sua casa depois de haver visitado e prestado auxílio a grupos compatriotas que fugiam dos bombardeios da OTAN. Encontra-se suficientemente próximo de sua casa para ouvir o assobio dos mísseis e as explosões.
A OTAN utilizou um total de 8 mísseis, de 900 kg cada um. O espião havia colocado em cada uma das casas dispositivos que deviam servir de guia aos mísseis, precisamente nas casas dos meninos. Os mísseis cairam em intervalos de uns poucos segundos. Os avós tiveram tempo de sair de sua casa, mas já era tarde para salvar os filhos e os netos. Quando o último míssil alcançou sua própria casa, o general teve o reflexo de proteger sua esposa com seu corpo. Acabavam de passar pela porta para fora e a onda de choque lançou os dois a uns 15 metros da explosão. Os dois sobreviveram.
Na sua chegada, Khaled não encontra mais que desolação. A mulher a que tanto amou e que carregava um novo filho em seu ventre havia desaparecido. Seus filhos, pelos quais estava disposto a fazer qualquer sacrifício, morreram despeçados pelas explosões ou esmagados pela queda dos tetos.
Cada uma das casas é agora um monte de ruínas. Doze corpos destroçados jazem abaixo dos escombros. Vários cervos alcançados pela metralha agonizam no curral.
Os vizinhos acorrem ao local para buscar em silêncio algum sinal de vida entre os escombros. Mas não há esperanças. Os meninos não tem mais a mínima possibilidade de escapar do impacto dos mísseis. Conseguem recuperar o cadáver decapitado de um bebê. O avô recita o Corão. Sua voz é firme. Não chora. A dor é demasiadamente profunda.
Em Bruxelas, os porta-vozes da OTAN dizem haver bombardeado a sede de uma milícia favorável a Khadafi para proteger a população civil da repressão do tirano.
La casa de la familia Al-Hamedi, bombardeada por la OTAN.
Foto: Franklin Lamb / Red Voltaire
Ninguém sabe como se planejou aquilo no seio do Comitê de Objetivos. Muito menos se sabe como o Estado Maior acompanhou o desenvolvimento da operação. A OTAN, seus vistosos generais e seus diplomatas adeptos do pensamento correto decidiram assassinar o meninos das famílias dos líderes líbios como recurso psicológico para quebrar sua resistência.Desde o século XIII, os teólogos e juristas europeus proibem o assassinato de famílias. Este é um princípio básico da civilização cristã. Somente a máfia tem sido capaz de ignorar esse tabú... a máfia e, agora, a OTAN.
Em 1º de julho, enquanto que 1,7 milhões de pessoas participavam em Trípoli de uma manifestação a favor da defesa do país contra a agressão estrangeira, Khaled foi para a frente socorrer aos feridos e refugiados. Vários franco-atiradores o estavam esperando e trataram de matá-lo. Foi gravemente ferido mas, segundo os médicos, já está fora de perigo.
A OTAN ainda não terminou seu trabalho sujo.
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