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terça-feira, 17 de abril de 2012

MST tranca avenida do CPA, em Cuiabá, para lembrar 21 assassinados

Keka Werneck, da Assessoria de Imprensa do MST

Cerca de 300 militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) fecharam a avenida do CPA, uma das principais vias de Cuiabá (MT), em pleno horário de pico, das 8h às 8h21.


O ato pacífico lembra as 21 vítimas do massacre em Eldorado de Carajás, que morreram a tiros em uma desocupação de rodovia, no Pará, há 16 anos. Dos envolvidos na chacina, só dois foram condenados, mas estão livres.
Impunidade. Esse é o foco da Jornada de Lutas do MST em todo o país neste abril, em que o Movimento pauta a urgência da reforma agrária, para que no campo e na cidade as pessaoas tenham melhor qualidade de vida, inclusive comida mais barata e livre de venenos agrícolas. É por isso que os sem-terra do MST vão fazer outro ato hoje à tarde, em frente ao Tribunal de Justiça (TJ).


Na linha de frente do trancamento, dona Clementina Ferreira de Moraes, de 71 anos, segurava a bandeira do MST, para impedir a passagem. Ela veio do Acampamento Maria Bemvinda, em Nortelândia, no Médio Norte. Nasceu e criou na roça. Mudou-se para a cidade para os filhos estudarem. Agora, através do MST, está de volta às origens. “Eu tenho fé em Deus que nós vamos vencer. Confio em Deus primeiramente, mas tenho um pouco de medo da polícia chegar e descer o cacete”. No acampamento, apesar da terra ser ruim, porque tem muita areia, ela já planta mandioca, milho, cana, banana, batata, quiabo e maxixe. Mesmo assim, ainda passa dificuldade alimentar.

“Às vezes a gente passa fome, porque demora para colher e às vezes demora também para chegar a cesta básica dada pelo Governo Federal. Não falta comida de uma vez porque as crianças ajudam quando vai acabando o alimento, mas a gente come uma mandioca, um arroz e um macarrão, para segurar o estômago”. No sofrimento da luta, se sente forte e guerreira. “Com 71 anos, ainda faço um serviço que um jovem faz”.


Durante o trancamento, alguns motoristas, de carro, moto e ônibus, mostraram-se irritados e outros apoiam a causa.

É o caso do motorista de ônibus Ronaldo Rodrigues da Silva, 41 anos. Já ouviu falar do MST e se disse solidário à causa. “Posso perfeitamente esperar um pouquinho por essa boa causa. Assim como eu reivindico os meus direitos, como trabalhador da cidade, eles também podem fazer isso”.

Marcos Moreira, 30, metalúrgico, dirigia o primeiro carro do bloqueio. Também se disse solidário à causa. “Acho que teria que ter conscientização dos políticos para não chegar a um momento desses do povo ter que ir para a rua. Quem está aqui na fila fica chateado, pelos compromissos. Por dois segundos, fiquei na manifestação, mas isso serve para a gente refletir o porquê de ter chegado a esse ponto, a irresponsabilidade dos governos é muito grande”.


Já o motoqueiro Jair, que não quis dar sobrenome, 30 anos, estava bravo. Com a mulher na garupa, alegou atraso. Ele trabalha com informática. “Eu apoio a causa. Só que não concordo com algumas coisas que eles fazem. Acho que todo mundo tem seu direito, inclusive eles também de ter a terra. Agora não concordo de fechar a rua e, no caso, eu e minha mulher estamos atrasados para o trabalho. Os sem terra estão dando a mensagem para as pessoas erradas, têm que dar essa mensagem para os políticos. Eles devem ficar dia e noite no ouvido do prefeito e dos governadores. Eles têm tempo para ficar ouvindo e nós não, nós temos que trabalhar”.

Lucinéia Freitas, da coordenação estadual do MST, explica que o MST não quer prejudicar os trabalhadores não, mas sim os patrões deles, a burguesia. “A ideia de fechar aqui em horário de pico foi justamente para abranger o maior número de pessoas para que relembrem o massacre em Eldorado. A gente sabia que alguns iam rejeitar o bloqueio. Infelizmente, a memória das pessoas é muito curta, muitos não se lembram mais de Eldorado, nem da Cachina do Beco do Candeeiro, em Cuiabá, nem do Massacre da Candelária, no Rio de Janeiro, há um extermínio dos pobres, há a criminalização da pobreza, hoje o crime é ser pobre”. Conforme Lucinéia, “parando os trabalhadores, vamos mexer no bolso do empresário”. Aos trabalhadores, diz ela, “nós explicamos nossos motivos e buscamos a solidariedade deles, assim como somos solidários aos irmãos trabalhadores da cidade”.

A Jornada de Lutas do MST em Mato Grosso começou ontem, com o trancamento da BR-163. É tenso o clima em Sorriso, já que, conforme informações preliminares, fazendeiros estão se juntando para tirar os sem terra da rodovia por conta própria.

Em todo o país, nas principais cidades, estão ocorrendo atividades políticas para lembrar que a reforma agrária precisa ser feita, como exigência para a construção de um país mais justo. Esse é o recado dos sem-terra.

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